Em algum momento da carreira, toda professora descobre que existem lições que nenhum livro consegue ensinar. Para a paulistana e doutora em Física, Sonia Regina da Silva Guimarães, 70 anos, elas costumam aparecer do lado de fora da sala de aula.
Às vezes, chegam em forma de uma mensagem no celular, em um abraço inesperado pelos corredores, ou ainda, quando um ex-aluno diz que escolheu a Física porque um dia ouviu dela uma frase simples, mas poderosa: “Você é capaz.”
É nestas horas que a professora, acostumada a falar de elétrons, semicondutores e materiais inteligentes, se emociona. “Quando alguém me conta que decidiu estudar Física porque acreditou no que eu disse ou se inspirou na minha história, fico profundamente feliz e grata”, diz Sonia.
Referência nacional
Há 33 anos vivendo em São José dos Campos, Sonia construiu na cidade uma trajetória que ultrapassou os laboratórios do ITA (Instituto Tecnológico de Aeronáutica), uma das mais respeitadas escolas de engenharia do país.
Tornou-se referência nacional em 1989, quando entrou para a história como a primeira mulher negra brasileira doutora em Física e também a primeira professora negra da instituição e onde ela ainda dá aula.
Mas, por trás dos títulos, das pesquisas e dos reconhecimentos internacionais, permanece a menina da escola pública que acreditava que aprender era a forma mais bonita de conquistar liberdade.

Sonia sempre teve incentivo da família para estudar | Foto: Acervo Pessoal
Curiosidade
Sonia é filha de um tapeceiro e de uma comerciante. Cresceu em uma família simples, onde nunca faltou incentivo para estudar. A educação pública foi o cenário onde tudo começou e ela lembra com nitidez de uma das paixões da infância: o francês.
Muito antes de imaginar uma carreira científica, Sonia já chamava atenção pelo desempenho nos estudos. “Eu era fluente em francês quando estava no que hoje corresponde ao ensino fundamental. Participava das competições e ganhava todas.”
Graduou-se em Física pela Universidade Federal de São Carlos, onde também concluiu mestrado em Física Aplicada. Posteriormente, realizou doutorado em Materiais Eletrônicos na antiga University of Manchester Institute of Science and Technology, da Inglaterra.
Quebra de paradigma
Na ciência, ela aprendeu uma das lições que hoje transmite aos estudantes: errar faz parte do processo e cada tentativa ‘fracassada’ aproxima da resposta certa. Essa filosofia também explica por que Sonia se tornou uma das cientistas brasileiras mais admiradas da atualidade.
Em 1993, chegou a São José dos Campos para integrar o corpo docente do ITA. Além de ensinar Física, passou a ocupar um espaço que, até então, parecia reservado apenas aos homens. Sua presença representava muito mais do que diversidade, representava a quebra de um paradigma.
Reconhecimento
Ao longo das últimas décadas, Sonia percebeu que sua atuação já não estava restrita às pesquisas científicas. Seu nome passou a circular em escolas, universidades, congressos e redes sociais. E os convites para palestras se multiplicaram.
Hoje, integra conselhos e iniciativas nacionais voltados ao fortalecimento da ciência, da tecnologia e da participação feminina e negra nestes espaços, contribuindo para a construção de políticas e debates sobre inovação e educação no Brasil. O reconhecimento veio naturalmente.
Entre diversas homenagens recebidas ao longo da carreira, está a Medalha Santos Dumont de Honra ao Mérito. Recentemente, passou a integrar a tradicional lista da revista Forbes que reúne mulheres brasileiras de destaque, pela sua produção científica e capacidade de transformar vidas por meio da educação.
Ainda assim, Sonia insiste que o prêmio mais importante continua sendo outro. É quando um jovem se aproxima para dizer que perdeu o medo de sonhar.
O texto faz parte da série Talentos de São José, produzida em comemoração aos 259 anos de São José dos Campos. Confira aqui a programação de aniversário.
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