“É bom demais ser saudável.” A frase de Francisca Pereira, de 51 anos, resume uma experiência que, até pouco tempo atrás, parecia distante: voltar a ter uma vida sem as limitações provocadas por uma grave doença cardíaca.
Transplantada de coração em novembro de 2025, no Instituto do Coração (Incor), em São Paulo, ela foi uma das personagens principais da programação do Setembro Verde realizada nesta sexta-feira no Hospital Municipal Dr. José de Carvalho Florence, em São José dos Campos.
Ao lado dela, o professor e escritor Nevicthon Fagundes, conhecido como Thony, transplantado de fígado, também compartilhou sua história e falou sobre a relação de gratidão que mantém com o doador que tornou possível sua nova vida.
Os dois relatos emocionaram o público e deram um sentido concreto à discussão sobre doação de órgãos: por trás de cada número, existe uma pessoa que esperava por um transplante, uma família que tomou uma decisão em um momento de dor e uma nova história que pôde começar.
Vida nova
Francisca foi diagnosticada com cardiopatia hipertrófica em 1997. Ao longo dos anos, acompanhou de perto os efeitos da doença na própria família: perdeu cinco irmãos ainda jovens, todos com o mesmo problema. Em fevereiro de 2025, entrou na fila de transplante e, meses depois, recebeu a notícia que mudaria sua vida.

Francisca deu um depoimento emocionante durante o simpósio | Foto: SPDM
“Ainda estou me conhecendo, pois só agora me sinto saudável, depois de anos convivendo com a doença. Precisa existir mais comunicação para que mais pessoas sejam beneficiadas”, afirmou.
Francisca também fez questão de agradecer ao doador e às equipes que continuam acompanhando sua recuperação. Para ela, a doação representa um ato de amor.
“Eu agradeço muito ao meu doador. É um ato de amor. E também agradeço a toda a equipe multiprofissional que me atende até hoje”, disse.
Gratidão
Thony também falou sobre gratidão. Ao iniciar seu relato, fez questão de reconhecer o trabalho dos profissionais que atuam na captação e no processo de transplante. “Primeiro, quero agradecer quem está deste lado, da captação, aos profissionais que se empenham nas equipes. Obrigado por poder ajudar outras pessoas”, afirmou.
Para ele, a doação representa um gesto de amor incondicional, justamente porque quem doa não sabe quem receberá o órgão.
“Quando me perguntam o que eu sentia quando recebi o órgão, eu respondo que me sinto amado, pois o doador não sabia quem eu era. Mais até do que a ausência dos sintomas”, contou.
Thony disse ainda que procura preservar a memória do doador e reconhece a profunda transformação provocada pelo transplante. “Sou outra pessoa. Emocionalmente e espiritualmente”, afirmou.
Ao lembrar o período vivido antes do transplante, Thony também destacou o apoio da mãe. “O amor da minha mãe e o meu amor por ela fizeram suportar essa dor”, afirmou.
Hoje, ele define a vida após o transplante como uma redescoberta da alegria e do amor.

Thony: “Sou outra pessoa. Emocionalmente e espiritualmente” | Foto: SPDM
Desafios do processo
A programação promovida pelo Hospital Municipal reuniu profissionais da instituição, transplantados e convidados para compartilhar informações, experiências e os desafios relacionados à doação e ao transplante de órgãos e tecidos.
A abertura foi conduzida pela psicóloga Tania Daoud, integrante da e-DOT HMJCF (Equipe Hospitalar de Doação para Transplantes), que abordou os aspectos emocionais envolvidos no processo.
Segundo Tania, a doação acontece em um momento especialmente delicado para as famílias, que precisam lidar com a perda de uma pessoa querida enquanto são apresentadas à possibilidade de transformar aquela dor em esperança para outras pessoas.
A enfermeira Karina Higa, também integrante da e-DOT HMJCF, reforçou que a comunicação com a família é um dos pontos fundamentais de todo o processo. Para ela, os profissionais precisam desenvolver um olhar mais empático, com escuta qualificada e disposição para explicar cada etapa.
“A comunicação faz toda a diferença. Não devemos fazer juízo de valor quando a família recusa, é direito dela. A gente sempre espera o aceite, mas nem sempre isso acontece”, afirmou.
Karina destacou ainda a necessidade de reduzir o distanciamento entre profissionais e familiares, permitindo que eles compreendam a situação, tenham espaço para fazer perguntas e recebam informações claras sobre o diagnóstico.
“Precisamos estar abertos para a família, fazer com que ela entenda a situação e deixar claro o diagnóstico”, disse.

A enfermeira Karina reforçou a importância da comunicação com as famílias | Foto: SPDM
Cadeia de etapas
O coordenador da e-DOT HMJCF, médico Rogério Xavier, apresentou a palestra “Os desafios da doação de órgãos e tecidos”. Ele explicou que a efetivação de uma doação depende de uma cadeia de etapas, que começa na identificação do potencial doador e envolve aspectos médicos, familiares, éticos e logísticos.
Entre os principais desafios destacados estão a identificação do potencial doador; a compreensão, pela família, de que a morte encefálica é irreversível; a recusa familiar relacionada à falta de compreensão, desconfianças, medos e questões culturais e religiosas; a manutenção da ética, transparência e confiança no processo; e, finalmente, a transformação dos órgãos disponíveis em t
